O ESPELHO SEM MULHER – FOTOGRAFIA FICCIONADA
SUSANA NEVES
Imagine-se um espelho insubmisso que não reflecte a
realidade tal como a ‘julgamos’ ver. Em vez disso, deitando entre outras coisas
Narciso pela borda fora, decide ele próprio recriar tudo, desde a antiga deusa-pássaro
Atena, da Grécia (Morrigan na Irlanda e Laima nos Países Bálticos) até aos povos
do espelho e aos povos sem espelho. Mas a aventura de percepção ultrapassa-o.
Na sua superfície reflectora, e malgré lui,
emergem cidades vegetais invisíveis, florestas suspensas, personagens e bichos
inesperados, meio fauna meio flora. Destacam-se figuras geométricas que
constituem uma sacred geometry propiciando uma sensação intensa de
viajar na imobilidade. No entanto, de modo paradoxal, trata-se de uma
imobilidade extremamente móvel.
Entramos numa pluralidade de mundos, num multiverso, em
que se cruza uma cartografia flutuante (a fotografia) com uma nova realidade ou
várias outras realidades. Ligam-se vários mundos por vir com o ‘nosso’ mundo, supostamente
estável, confortavelmente tridimensional.
O espelho insubmisso, “O Espelho sem Mulher”, ao mesmo tempo que se afirma como
máquina de ficção anuncia o fim da era narcísica e só por esse facto torna-se
libertador.
Jürgen
Kluppen
in A máquina de somar ficções,
Berlim, 2013.
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