sábado, 12 de outubro de 2019

A DECORRER || GALERIA DIFERENÇA "Especial Acervo I" || 05/10 - 26/10

*imagem de E.M.de Melo e Castro

 Na continuação da celebração dos 40 anos da Cooperativa Diferença e para a exposição Especial Acervo I foram seleccionadas a partir do seu acervo, um conjunto de obras muito pouco vistas entre o período de de 1979 a 2019 dos seguintes artistas: 
Albertina Sousa, Ana Hatherly, Ângelo Encarnação, E.M de Melo e Castro, Hein Senke, Irene Buarque, Leonel Moura, Mário Cesariny, Marta Caldas, Pedro Calapez, Salette Tavares, Sérgio Taborda.



A DECORRER || CARINA MARTINS "Physis" || 05/10 - 26/10





                                                                                                     
                                                                                                       www.carinamartins.org
   




We are walking, talking minerals.

Vladimir Vernadsky



Quando a humanidade se habituou a dominar a natureza, manipulando-a como um meio para atingir certos fins, esqueceu-se. E esse “esquecimento” permanece até hoje como símbolo da violência antropocêntrica exercida sobre o planeta. Se no outro lado do espelho, ou no inconsciente, habita ainda um vestígio da comunhão primordial com o cosmos, do lado de cá multiplicaram-se com êxito as metafísicas do divino e do transcendental, enquanto a physisperdia lentamente a sua mais íntima potência de Ser, para se conotar somente com a matéria tangível do mundo natural. No cerne desta dualidade, e da quase-eterna distinção entre a alma e o mundo, entre sujeito e objecto ou entre matéria e energia, foi sendo arquitectada toda uma ontologia bélica do ser humano, demasiado humano. 

Toda esta carga ideológica acumulada ao longo dos séculos e vertida na hierarquia humanista, confronta-nos agora com uma anomalia à escala planetária. Ainda assim, para além da actual urgência ecológica, é necessário descolonizar a imagem cristalizada da subjugação da natureza que nos é incutida, desde tenra idade, pela ideologia do consumo massificado.

No conjunto de fotografias que compõem Physis,Carina Martins afasta-nos do regime diurno determinado pela razão instrumental moderna, favorecendo uma digressão dos sentidos para além do imediatamente visível e levando-nos a percorrer uma certa geografia da noite e da penumbra. A perspectiva linear do olhar cognitivo (ocularcentrismo) perde a sua frontalidade, a visão torna-se periférica e à racionalidade sucede a afecção. Enquanto que em projectos anteriores o referente fotográfico se inscrevia sob uma luminosidade diurna, Physis, aproxima-nos agora de outras formas de vida, procurando, sob a cintilação da noite, a matéria vibrante constitutiva de todas as substâncias. Nestas circunstâncias, a ausência de luz solar intensifica a existência espectral das coisas e essas presenças reais tornam-se manifestas em cada uma das imagens. Entre o limiar urbano e civilizacional do antropoceno e o imenso território da bioesfera, a fotógrafa realiza uma investigação visual ao epicentro da luz nocturna e dos seus ecossistemas, elogiando a sombra dos lugares habitados por uma miríade de organismos minerais, vegetais e animais.




O desejo de aproximação à natureza em si reflecte-se no acto de fotografar enquanto possibilidade de mergulhar na frágil complexidade da interdependência da vida e, consequentemente, na imanência de uma estética ancorada na dimensão ecológica da consciência artística. No entanto, se quisermos adoptar uma perspectiva intrínseca à ecologia profunda, ou seja, se nos quisermos aproximar da ‘natura naturans’,uma representação pictórica (picture) da natureza de pouco serve. Confrontamo-nos assim com uma aporia ou descrença paradoxal: como produzir uma fotografia da “coisa em si”, ou do irrepresentável? Que não se confine à mera figuração de um objecto, e que ofereça ao observador a possibilidade de se confrontar com outro ser, i.e., de sujeito para sujeito.
No confronto entre o olhar e as imagens de Physis– bem como na nossa relação com a natureza - algo deve mudar e, a acontecer, é ao nível da fenomenologia da percepção e das suas modulações afectivas e cognitivas. Já não se trata de ver como no regime antigo da visão pré-tecnológica, mas de aceder poeticamente a uma outra partilha do sensível, desaprendendo os preconceitos inflexíveis do que possa ser uma floresta, uma árvore ou uma montanha.

Rui Ibañez Matoso | Curadoria


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Carina Martinsvive e trabalha em Lisboa. Licenciou-se em Tradução de Inglês-Alemão pela Universidade Católica e em 2016 concluiu o Curso Avançado de Fotografia no Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual. Trabalha principalmente com fotografia e vídeo, explorando as paisagens industriais, a natureza, os lugares perdidos. Num processo de descontextualização e apropriação desses elementos, interessa-se pela desocupação humana dos lugares, na quietude, em formas geométricas e ficcionais. Tem exposto com regularidade desde 2008.